sexta-feira, 14 de agosto de 2020

 


Eu olhava a lua

jaci

E de tão andava de ponta cabeça caminhava pelo céu noturno

Era luz pairando

Era reflexo estremecido

Na agua de swus olhos

Quem era eu na história

Das 13 irmãs que desafiavam o ceu

Circundando o globo escuro

Encontro a plenitude em kairé

Pés desnudos a luz da lua

Oferto ciclos e cantigas na beira de uma fogueira cigana

A taça cheia , o brinde certo

Na ânsia do abraço eclipsado

Sonho com o segredo velado

No sorriso solido

Eu faço voltas soprando a chama

Creoita o fogo

O vento traz o veu das nuvens para cobrir a minha nudez

E eu insinuo o que sou

Sendo luz que abraça o todo 

 


Durante a noite as palavras me levaram a visitar

Frente ao espelho dos teus olhos aflitos

Dancei com minha espada empunhada

Abri a porta fechada

Soltei meus longos cabelos

Os pés descalços, os olhos alertas

A boca cerrada, fronte cerrada


Durante a noite a lua veio me visitar

Trouxe a mim a defesa

Cristais de fogo

Penas de ave de agouro

Gotas Orvalhadas

Fôlegos roubados


Durante a noite a lua veio me visitar

Olhei o escuro sem medo

Caminhei firmemente

Mergulhando nos meus olhos sombrios

Em mim uma guerreira , uma raposa

Uma dançarina, uma harpia

Uma lamina inculta.


 carol Dias

 

 

Não era musica.Nem a explosão das cores.
Oque me cegava os sentidos era o medo do apego. O medo infundado de me apegar e de que alguém a mim se afeiçoasse, como se isso tivesse o poder de expor meu desejo de quebrar as amarras que me prendem a materialidade do mundo. Sem amor o coração, estéril não anseia os longos vôos, busca aquietar se em sua solitude, entre mornos abraços eu quero arder com a intensidade de mil sois. não era a voz que me despertava, era o carinho de dedos insones costurando afeto na minha pele. Eu guardei o silêncio para não esvoaçar as intenções.... fiquei curiosa com o cuidado e carinhosamente surpresa, mergulhei no frenesi inquieto das palavras que saem por acidente no desviar dos seus olhos. Minhas mãos trabalham na quietude dos seus sonhos despertos, meus pes se aproximam lentamente enquanto aguardamos o amanhecer na frieza da noite . Meus olhos ardem esperando encontrar os seus.

 


Entre olhos que conversam sem palavras

meu corpo conversa na sua racionalidade

dizendo oque sinto

o que sonho

o que desgosto de ser, de ver

eu só preciso quietar a boca

e olhar dentro do peito as dores que carrego

elas falam de mim

mais que os olhares

que palavras que ao final

terminam sendo vazias

pois os meus sentidos estão ocultados

na respiração que falta

no movimento que trava

no medo de jogar me para enfrentar a vida

nos olhares desviantes

no tremor da perna quando eu sinto que é isto

mesmo assim a coragem surge das profundezas

e me empurra de corpo e alma

vai com medo mas vai com alma

atira-te sobre os silêncios dos outros

e segue quieta teu caminho

não permita pesos nos ombros

ou temor nos pés, caminha

guarda teu sonho secreto no canto do olhar

e flui vitoriosa sobre o que pensas que pensam

porque no final a tua luta consigo mesma

e não há testemunhas nem acusadores

estará no fim dos tempos prestando contas

deste medo que teve na vida

das quantas armas que usou ao se levantar contra ele

luta como uma mulher

veste eu vermelho e ponha fogo no olhar

conclama o raio e o facão

chama os santos espíritos e os orixás para te guiar

canta o ponto das tuas guias e ergue a fronte

pede de oxum a estrategia, de yansã a energia

de yemanjá essa luz que é amor em brisa e tempestade

de obá as artes de guerra e de nanã a sabedoria

Lute mulher, como Joanas, e Marias

até o raiar de outro dia

que a noite não te esmureça

menos ainda a manhã fria

olha teu corpo e teu sorriso são parte milenar de uma historia

vence mulher com a calma de uma rainha

ama mulher como uma deusa ancestral

vive mulher, sabendo que somos parte de uma saga imortal

uma hora de Ora Yê Yê Ô outras de Odoyá Odocyabá

Epahey Oyá, obá xirê, Saluba Nanã,

tem horas que não sou uma , eu com elas e elas comigo

eu olho a frente e não vejo perigo

por que de tantas mães que me zelam nenhuma nunca me deixou só.


Carol Dias


 

Ninguém é forte o tempo todo
mas entre altos e baixos
descobrimos nossas verdadeiras forças
na aceitação e transformação interior
quando olhamos para dentro
crescemos

 


Meu canto era um conto

De mil fios

Era cono uma toiceira de ideias

Eu era um novelo de mim

Era pureza e essencia

Era de uma linearidade honesta

Sou o que sou

Entre sorrisos esquecendo o que não sou

Meu nome era um canto em um conto

Era pesar e cantar

E esperar o curso das águas se derramar

Eu sou as águas que me negaram

Derramo escoando o sentimento ausente

Eu transbordo por ser oque sou

E não negarei minha essencia

Entre descontentes eu canto sem pesar


Carol Dias



Não é o acaso em sua porta

São as oportunidades abrindo caminhos

Rompendo as fronteiras da adversidade

A necessidade de transformação

A inquietude

O medo se alertando

Dizendo a hora de brecar

Eu não sei do amanhã

Nem do agora

Se o acaso bate a sua porta

Vestindo uma terno roto

Um cabelo desgrenhado

E uma barba por fazer

Que diga ele com sua boca

Apontando com seus dedos torpes

Qual segredo as palavras esconderam

Inquietas as letras confundem- se

Com o ruido do entardecer

Somente o outro mundo

Tem a resposta para os desejos negados

A madrugada insone despede-se

Entre meia lua de sorrisos

E eu quieta observando a orbe mover-se

Incessantemente.


Carol Dias



Não precisa ser um fractal

Por dentro oque está quebrado

Reflete a luz em poesia

Não rimo nem combino

Vou deixando as palavras se amontoarem

Se sobrepondo se misturando

Eu sou toda inteireza

Ruido, silencio e frações

Sobreposição

Da sensibilidade e razão


Carol Dias

Flores a você que já se foi



em memoria de meu Avô Antonio 

Quando eu grito saudade

O eco responde silencio

Maltrato as plantas secas na varanda

Com mais um punhado de sede


Quando eu grito seu nome

Ecoa reticências por toda parte

Desfaço a mesa do jantar

Tomo um copo de café amargo


O vento vem lambendo as minhas pernas

Fazendo eu esquecer das coisas que vim buscar

A frieza açoita os muros congelados da alma

A pausa se alonga e fica embranquecida

Eu, azulando os pensamentos abstraindo a falta de água ( e coração copioso)

Enterro meus pés no silencio

Para que de mim brotem absurdos girassóis

Bromélias arroxeadas

Amarillis de luz neon

Estrelicias de abraços mudos e gardênias

Mais um punhado de sede para todos na mesa

Menos um punhado de vida antes do fim dos tempos


Carol Dias

Todo dia



 todo dia uma nova costura

uma nova aventura

uma desventura

costura as fibras

refaço as trilhas

mudo caminhos

costura o que ficou

remendei a voz

segui falando de paz

quis tanto saber de nós

costura as paredes do seu ser

o coração com cuidado

costura a língua dos mal dizeres

e segue no ensinamento de Cora



Carol Dias